EM DEFESA DE MALALAÏ JOYA

EM DEFESA DE MALALAÏ JOYA

A mulher Mais Corajosa do Afeganistão


"O apoio das pessoas inocentes do Afeganistão que não têm poder, que não têm dinheiro, que são pessoas muito sofredoras, justamente isso tudo me dá coragem, determinação

"Eu sonho que uma mulher tome um dia as rédeas do Afeganistão um dia, e prove ao mundo inteiro que, no momento que lhes é dada uma chance, as mulheres podem fazer um trabalho brilhante.

"Sonho antes que as mulheres afegãs estabeleçam-se, levantem vôo, exijam todos os seus direitos. De tudo o que atormenta nosso país, elas são as principais vítimas: 87% sofrem violências domésticas; as violações - em grande parte impunes - são inomináveis. 80% das uniões são casamentos forçados, as filhas servem de moeda de troca: elas podem ser cedidas a velhos. ofertadas em reparação por alguma dívida, trocadas às vezes por um cachorro. o suicídio - forca, estrangulamento, imolação - surge a muitas como a única opção para fugir da miséria delas. Se você soubesse o número de mulheres queimadas, desfiguradas, no hospital de Herat!

"Eu me dirigi, denunciando a presença destes traidores, decididamente anti-feministas, que arruinaram meu país e que mereciam ser levados à Justiça. Houve de repente um alarido horroroso. Eles ficaram todos de pé, ergueram seus punhos, uivando injúrias, exigindo minha expulsão e minhas desculpas. Eu preferiria morrer!

"Tenho recebido um mar de insultos: prostituta, louca, infiel, comunista... Um dilúvio de ameaças: estupro, seqüestro, assassinato... Uma bomba explodiu na multidão que me esperava em um encontro. Meus escritórios têm sido espionados, tentaram emboscar minhas equipes. Tenho sobrevivido a quatro tentativas de morte. Minha determinação não vai ceder. Diziam-me que continuasse lutando contra os criminosos. Pediam-me que me apresentasse às próximas eleições. Eu não tinha o direito de esconder-me.

"Eu troco de teto toda noite. E de dia não ando mais por Cabul a não ser de táxi, escondida dentro de uma burqa.

"Eles podem cortar uma flor, mas não podem deter a primavera. As balas podem tirar minha vida mas não calarão minha voz, porque para sempre será a voz de todas as mulheres do Afeganistão."


Trechos do depoimento de Malalaï Joya ao jornal Le Monde da França, cuja tradução segue abaixo





"Um dia, teremos tudo em nosso país"

"Nós enfrentamos um 11 de setembro todos os dias no Afeganistão"


Citações de Malalaï Joya




NÃO DEIXE DE LER!!!


DENÚNCIAS DE JOYA - MASSACRES NO AFEGANISTÃO

"164 Civis Mortos em Ataque da OTAN"

Maio de 2009


DESCULPAS DO SARGENTO MATTHIS CHIROUX À LÍDER AFEGÃ MALALAÏ JOYA

Abril de 2009




Aqui, você entenderá exatamente o que se passa no Afeganistão, por que às tropas norte-americanas não interessa deixar o país, e também saberá por que você nunca ouviu falar de Malalaï Joya - uma pessoa "inconveniente" para os Estados Unidos e para os donos do poder afegão



Acesse o sítio de Joya na Internet, em inglês, persa e pashtu (amplo conteúdo em diversos outros idiomas):

www.malalaijoya.com


Blog em italiano:





Criador e responsável por este blog: Eduardo Montesanti Goldoni



No blog de Edu Montesanti, você encontra mais informações sobre Malalaï Joya, sobre a situação atual do Afeganistão e todo o conflito desta dita "guerra ao terror"

ACESSE!!!




O CONTEÚDO DESTE BLOG TAMBÉM ESTÁ DISPONÍVEL EM

www.blogdajoya.blogspot.com

# Enviado em Sábado 30 Agosto 2008 14:49
Modificado em Sábado 13 Junho 2009 14:57

UMA FLOR BROTA ENTRE PEDRAS NO AFEGANISTÃO - Nolan Chart

UMA FLOR BROTA ENTRE PEDRAS NO AFEGANISTÃO - Nolan Chart

por Edu Montesanti Goldoni, Estados Unidos, 18 de maio de 2009

Versão original em inglês publicada no Nolan Chart


Uma Flor Brota entre Pedras no Afeganistão

Há esperança para o Afeganistão? Sim, há! No país do Taliban e dos tão temidos senhores da guerra, a esperança do povo afegão encontra lugar nos seus homens combatentes e nas várias valentes mulheres. A eles, nossa admiração, solidariedade e oração; à Malalaï Joya nossas seguintes palavras de amor - apenas porque ela tem entregado sua vida, após ser expulsa do Parlamento afegão por denunciar os senhores da guerra - traficantes de droga. Joya não será jamais morta, e sua voz será para sempre a voz do seu povo



Uma flor brota entre pedras,
não há fertilidade em sua terra,
ela não tem abrigo, nem água,
nunca conheceu o arco-íris da liberdade.

Em Cabul, só sangue derrama-se sobre ela,
de Herat, ouve-se o choro de suas crianças,
um gigante estrangeiro, o foice local, ambos tão mortais
entre as estupendas montanhas de Qandahar,
tiros são disparados de toda a parte.

Não há horizonte, não há luz do Sol sobre a flor,
ela tem sido pisada, ofendida,
tem sobrevivido sozinha,
há incomparável formosura nesta flor,
cheiro de juventude.

O sangue do seu povo,
de centenas no solo todos os dias,
em verdade alimentam-na, não podem nunca sufocar seus sonhos.

De Jalalabad, ouve-se o suspiro do papai,
sacrificado pelo quê? O mundo não sabe...

O choro das suas meninas estupradas e queimadas,
mais alto dia após dia, ela não aguenta mais isso!

Não há canção, não há tempo, não há juventude,
a invadida Cabul está desolada,
covardes usam a força humana para ganhar terreno,
tão terrível, no Ocidente, outro lado do globo,
as pessoas não sabem o que significa
tal genocídio contra a humanidade...

Mas alegre-se, Cabul,
Você foi escolhida por Alá,
uma meiga flor, cheia de graça e vigor,
cuja força vem diretamente Dele,
cuja vida diária é dada pessoalmente por Ele,
cuja admirável valentia maravilha todo o mundo
cada vez mais,
não pode ser morta.

Essa flor tem entregado sua vida,
aos mais humildes, a esperança
pisada, ofendida, amada beleza,
em todos os lugares, todas as línguas têm compaixão de sua batalha.

Cabul, esse portento, tão especialmente seu,
um amor compartilhado,
a estrela da manhã sobre você,
tem o fragor da liberdade.

Uma flor chamada Malalaï Joya,
o mundo aprendeu a amá-la,
sua luta é nossa,
sua água vem de Alá


# Enviado em Sábado 30 Agosto 2008 15:13
Modificado em Segunda 15 Junho 2009 14:15

DENÚNCIAS DE JOYA - MASSACRES NO AFEGANISTÃO PRATICADOS PELAS TROPAS DA OTAN - Diagonal Periódico

DENÚNCIAS DE JOYA - MASSACRES NO AFEGANISTÃO PRATICADOS PELAS TROPAS DA OTAN - Diagonal Periódico

por Malala Joya, 19 de maio de 2009

publicado no Diagonal Periódico - Espanha

tradução de Eduardo Montesanti Goldoni



Como representante eleita de Farah, Afeganistão, levanto minha voz aos que condenam os bombardeios da OTAN que provocaram mais de 150 mortes civis em minha província, no início de maio de 2009. Este último massacre é una janela com vistas aos horrores que acarretam nosso povo.


Contudo, como detalhei na conferência de imprensa no último 11 de maio em Cabul, as autoridades militares dos EUA não querem que vocês presenciem esta realidade. Como de costume, tratam de reduzir o número de vítimas, mas tenho a informação que confirma que os bombardeios assassinaram 164 civis. Um jovem totalmente abatido, pertenecente à castigada aldeia de Geranai, narrou durante a conferência de imprensa que havia perdido 20 familiares no massacre.


A Comissão enviada pelo governo afegão, no entanto, parece ter fracassado ao omitir na lista de vítimas as crianças menores de três anos assassinadas. A Comissão governamental não está disposta a publicar sua lista e chegou ao povoado três dias depois do massacre, quando os que sobreviveron já tinham enterrado as vítimas en buracos comuns. Como pode se faltar com respeideste modo pela preciosa vida dos afegãos?

Recentemente os meios informaram sobre a sustitução do chefe militar estadounidense no Afeganistão, mas creio que estamos sozinhos diante de uma nova artimanha para enganar nosso povo e responsabilizar uma única pessoa pela desastrosa estratégia no Afeganistão.

O embaixador afegão nos EUA disse em uma entrevista no Al-Jazeera que se se desse "uma desculpa adequada", então a gente compreenderia as mortes de civis. Mas ao povo afegão não só quere escutar desculpas. Pedimos que se termine a ocupação do Afeganistão e que cessen os crimes de guerra.

As manifestações de estudantes e outras pesoas comuns contra estes últimos ataques aéreos, assim como o protesto do mês passado de centenas de mulheres afegãs em Cabul, mostram ao mundo o caminho a seguir para conquistar uma democracia autêntica no Afeganistão. Apesar do assédio e as ameaças, as afegãs saíram às ruas para exigir a abolição da lei que legaliza o estupro dentro do matrimônio e regula a opressão das mulheres xiitas em nosso país. Se diz que os ataques aéreos dos EUA oferecem segurança ao povo afegão e que a ocupação protege as mulheres afegãs, mas a realidade é exatamente o contrário.

Esta infame lei de hoje não é mada mais, senão a ponta de um iceberg, a catástrofe dos direitos da mulher em nosso país ocupado. O sistema em sua totalidade, e muito especialmente o poder judicial, está infectado pelo virus do fundamentalismo. No Afeganistão há impunidade para cometer crimes contra as mulheres. As cifras de sequestros, estupros coletivos e violência doméstica são de arrepiar e mais altas que nunca, como também a quantidade de mulheres que se imolan. Desgraçadamente, as mulheres afegãs preferen atirar-se ao fogo em vez de ter que suportar o inferno em vida sob o sol de nosso país 'livre'.

A Constituição do Afeganistão inclui dispositivos relativos aos direitos da mulher. Eu fui uma das delegadas que pressionou a fim de inclu-i-las na Loya Jirga [Congresso afegão] de 2003. Mas este documento de fundação do "novo Afeganistão" também esteve marcado pela forte influência dos fundamentalistas e dos senhores da guerra, com quem Karzai e o Ocidente se tornaram cúmplices desde o princípio.

De fato, esta nova lei contra a mulher não me surpreendeu ao mínimo. Quando os EUA e seus aliados sustituíram aos taliban pelos antígos e conhecidos senhores da guerra e fundamentalistas da Aliança do Norte, vi claramente que sairíamos do fogo para ir a frigideira.

Nos últimos anos dispomos de um grande surto de leis e decisões judiciais vergonhosas. Por exemplo, temos a repugnante lei aprovada sob o pretexto da "reconciliação nacional" que outorga imunidade judicial aos senhores da guerra e a conhecidos criminosos, muitos dos quais se sentam no Parlamento afegão. Quando se aprovou, os meios de comunicação mundiais e os governos fizeram vistas grossas.

Minha oposição à dita lei é uma das razões pelas quais, em maio de 2007, fui expulsa de meu trabalho no Parlamento de Cabul, na qualidade de deputada eleita pela província de Farah. Mais recentemente, produziu-se a escandalosa condenação a vinte años, ditada contra Parvez Kambakhsh, um jovem cujo único delito foi a suposta distribuição de um comunicado dissidente em sua universidade.

Estão chegando ao Afeganistão cada vez mais tropas dos EUA e da OTAN, segundo nos contam, para ajudar a garantir as próximas eleições presidenciais. Mas a verdade é que o povoo afegão não alimenta esperança nenhuma nesses comícios. Já sabemos que não pode haver uma democracia verdadeira sob as armas dos senhores da guerra, a máfia do tráfico de drogas e a ocupação.

Com exceção de Ramazán Bashardost, a maioria dos outros candidatos são caras conhecidas e desacreditadas, que já fizeram parte do governo mafioso de Hamid Karzai. Sabemos que um títere pode ser sustituido por outro títere, e que o ganhador destas eleições serão, sem dúvida, o que se decida a portas fechadas entre a Casa Branca e o Pentágono. Em resumo, creio que estas eleições presidenciaies não são nada mais que outra comédia para legitimar ao futuro títere dos EUA.

Como no Iraque, a guerra não trouxe a liberdade ao Afeganistão. Nenhuma das dos guerras tem sido um combate para conquistar a democracia ou a justiça, nem para eliminar grupos terroristas, mas ambas as agressões tinham e têm como origem os interesses estratégicos dos EUA na región. Nós, as pessoas afegãs, nunca aceitamos o conjunto de peões no "Grande Jogo" do Império, como já ficaram sabendo os britânicos e os soviéticos no século passado [leia mais sobre isso em Breve História e Atualidades do Afeganistão na página de Edu Montesanti, clique aqui]. É uma pena como os meios de comunicação ocidentais têm escondido a realidade afegã em apoio à ideia da "guerra boa". Talvez se os cidadãos dos EUA estivessem melhor informados sobre meu país, o presidente Obama não teria se atrevido a enviar mais tropas e gastar o dinheiro dos contribuintes en uma guerra que só está acrescentando sofrimento a nosso povo e que leva a região a conflitos cada vez mais profundos.

Nem a nova chegada de tropas extrangeiras no Afeganistão, nem o prolongamento dos ataques aéreos trarão liberdade às mulheres afegãs. A única coisa que farão é aumentar o número de vítimas civis e estender a resistência à ocupação.

Para ajudar realmente às mulheres afegãs, o povo dos EUA e de outros lugares têm que exigir de seus governos que deixen de apoiar e encobrir um regime de caudilhos e extremistas. Se estas gangues fossem finalmente entregues à justiça, as mulheres e os homens do Afeganistão demonstraríamos que somos muito capazes de prestarrnos ajuda sen ingerências.


# Enviado em Segunda 01 Setembro 2008 12:34
Modificado em Sexta 12 Junho 2009 20:32

GENOCÍDIO PRATICADO PELAS FORÇAS DE OCUPAÇÃO NO AFEGANISTÃO - Pajhwok

GENOCÍDIO PRATICADO PELAS FORÇAS DE OCUPAÇÃO NO AFEGANISTÃO -  Pajhwok


Malalaï Joya em entrevista coletiva, Cabul, 11 de maio de 2009

Pajhwok - Sítio jornalístico do Afeganistão

Tradução de Eduardo Montesanti Goldoni


CABUL, 11 de maio de 2009: A parlamentar Malalaï Joya mostra uma lista de vítimas mortas durante os ataques aéreos na província de Farah, ao sul, em conferência da Imprensa aqui, na segunda-feira. Ela condenou fortemente o ataque e disse que mais de 140 civis morreram na ofensiva. PAJHWOK/ Lataria Farshad

# Enviado em Segunda 01 Setembro 2008 13:14
Modificado em Quinta 18 Junho 2009 12:19

DENÚNCIAS DE JOYA - GENOCÍDIO NO AFEGANISTÃO - Pajhwok

DENÚNCIAS DE JOYA - GENOCÍDIO NO AFEGANISTÃO -  Pajhwok


Entrevista coletiva em Cabul, 11 de maio de 2009

Tradução de Eduardo Montesanti Goldoni


Junto de Joya o senhor Humayun, morador da cidade de Bala Baluk, que perdeu 20 membros de sua família mortos nos ataques dos Estados Unidos a 5 de maio de 2009, foi apresentado na conferência e conversou com os jornalistas.

Joya também apresentou uma lista de 164 civis mortos no incidente, preparada por seus apoiantes na cidade. O Pentágono tenta mostrar que a taxa de mortos é de apenas 12 pessoas!


# Enviado em Terça 02 Setembro 2008 14:02
Modificado em Quinta 18 Junho 2009 12:19

MEUS INIMIGOS SÃO OS TALIBAN, A MÁFIA QUE ESTÁ NO PODER E AS FORÇAS ESTRANGEIRAS - Público.net

MEUS INIMIGOS SÃO OS TALIBAN, A MÁFIA QUE ESTÁ NO PODER E AS FORÇAS ESTRANGEIRAS - Público.net

Público.net, Portugal

17.04.2009, Alexandra Lucas Coelho


Chamam-lhe a mulher mais corajosa do Afeganistão. Num país de homens, Malalai Joya chama criminosos aos senhores da guerra. Dois anos após ser eleita deputada, expulsaram-na
do Parlamento, com ameaças de morte. Hoje vive de casa em casa, clandestina. Há dias recebeu mais um prémio internacional na Holanda. No regresso, conversou com o P2


[O pai de Malalai Joya, estudante de Medicina, foi perseguido na ocupação soviética do Afeganistão. Ela tinha quatro anos quando a família saiu do país. Refugiaram-se no Irão e no Paquistão e voltaram após o derrube dos taliban. Na grande assembleia constitucional Loya Jirga, Malalai pediu três minutos e denunciou os senhores da guerra ali presentes, até a impedirem de falar. Ficou célebre. Em 2005 tornou-se a mais jovem deputada eleita e continuou a denunciar muitos deputados como senhores da guerra e traficantes de droga. Em 2007, uma maioria de deputados juntou-se para a expulsar. Passou à clandestinidade. Já foi nomeada para o Nobel da Paz e tem recebido prémios de Direitos Humanos na Europa. É protagonista de um documentário premiado no Festival de Berlim de 2008. Perante as estrelas - Deneuve, Kasparov, Geldof, Hillary Swank -, tanto defendeu os direitos das mulheres afegãs como criticou a ocupação estrangeira. Falou ao P2 por telefone, de Cabul.]

Neste momento estou a viver em Cabul, mas tenho problemas de segurança. Quando me expulsaram do Parlamento, há dois anos, a minha vida tornou-se arriscada, e é por isso que tenho de estar a mudar de casa, tenho de ter guarda-costas, não posso ter um escritório. Há muita gente no Afeganistão que quer encontrar-se comigo, mas com a maior parte só posso ter contactos indirectos ou clandestinos.
Fui expulsa do Parlamento por dizer a verdade, por tirar a máscara aos traficantes de droga, aos senhores da guerra e criminosos. Depois do 11 de Setembro, alcançaram o poder e impuseram-se ao nosso povo. São antimulheres e antidireitos humanos.

A minha vida mudou desde que os expus ao mundo, em 2003 [durante a Loya Jirga ]. E, quando entrei para o Parlamento, impediam-me de falar. Desligavam o microfone. Chegaram a bater-me. Ameaçaram matar-me. Foi uma tortura. E em 2007, porque não me conseguiam calar, usaram uma das minhas entrevistas [em que Malalai comparava o comportamento de alguns deputados ao de animais] para uma conspiração. A maioria votou pela minha expulsão. Recebi apoio nacional, em Cabul [Centro], em Jalalabad [Leste], na província de Farah [Sul, de onde Malalai é originária]. Fizeram-se manifestações e houve uma condenação internacional. Os deputados disseram que se eu pedisse desculpa podia continuar no Parlamento, mas não é necessário pedir desculpa quando dizemos a verdade.

Agora tenho um advogado de defesa, mas, como não há justiça no Afeganistão, a última resposta ao meu advogado foi que a minha expulsão nem tinha sido grande castigo, deviam ter-me respondido com uma Kalashnikov. Ameaçaram-me de morte abertamente, e também ameaçaram matar o meu advogado.
Quando me expulsaram do Parlamento, um daqueles ditos deputados disse: "Se ela não se cala, vou com uma bomba e elimino-a." E recebi mais ameaças assim.

É por isso que estou sempre a mudar de casa. Recentemente houve uma quinta tentativa de assassinato contra mim, e tive sorte, tinha saído dessa casa. Para me movimentar uso burqa, e tenho 12 guarda-costas, que vão mudando, de seis em seis meses.


Máfia no poder

No dia 24 de Abril vou fazer 31 anos. Sou casada. Não tenho filhos - estou disposta a fazer sacrifícios pelo meu povo e esta não é uma vida normal. Às vezes encontro-me com o meu marido em casas de apoiantes, e felizmente ele apoia-me. Ele era estudante na universidade, mas agora está à procura de trabalho. Para a maior parte dos afegãos não é fácil, as pessoas estão desempregadas. Eu e o meu marido não podemos ter uma casa, mas, para mim, mais importante do que uma casa era um escritório, por causa de quem telefona e me quer ver. Digo que estou a tentar reunir provas dos crimes dos senhores da guerra, mas é especialmente difícil no caso das raparigas que foram violadas. Telefonam e, de forma clandestina, tento o mais possível encontrar-me com elas, dar-lhes coragem e esperança, convencê-las a não se matarem. Isso é muito importante, mas é difícil eu conseguir fazê-lo.

O que me dá esperança e coragem é o forte apoio das pessoas que diariamente me mostram como estou certa. Pessoas que acreditam na democracia e na paz, e também organizações antiguerra pelo mundo, que apoiam a minha luta antifundamentalista.

O meu Comité de Defesa [que mantém o site http://www.malalaijoya.com] é formado sobretudo por jovens afegãos. Depois do meu discurso em 2003 [na Loya Jirga], disseram que queriam fazer um site para me ligar ao mundo e que não pertenciam a nenhum partido. Só concordavam comigo e queriam ajudar. São muito honestos, e não lhes pago nada, respeito-os, amo-os, partilhamos a fé na democracia e nos direitos humanos. Dá-me alegria que dia a dia este grupo cresça. Este Prémio Antidiscriminação, que acabei de receber na Holanda, foi com os votos da juventude holandesa.

Tudo isto põe mais responsabilidade nos meus ombros, para não ficar em silêncio e lutar contra os fundamentalistas, os taliban e também os da Aliança do Norte que estão no poder. Porque temos um sistema mafioso.


Entre dois inimigos

Agora querem mandar mais tropas para o Afeganistão. Para os afegãos isso quer dizer mais guerra e conflito. Estas tropas cujo número Obama quer aumentar vão bombardear em nome da "guerra contra o terror" e vão matar civis inocentes. Desde que Obama chegou ao poder, 150 civis foram mortos, e muita gente ficou ferida. Estão a matar pessoas que são contra os taliban, e muitas delas são mulheres e crianças. E Obama planeia falar com alguns taliban violentos e com Gulbuddin Hekmatyar [um líder regional de reputação violenta]. O ciclo de senhores da guerra ficará completo, e os inocentes, especialmente as mulheres, serão as vítimas.

O Governo americano traiu a democracia e os direitos das mulheres ao trazer estes fundamentalistas da Aliança do Norte, que mentalmente são como os taliban. A segurança é o problema principal do meu povo, neste momento. O Governo não tem qualquer controlo fora de Cabul. E com os milhões de dólares que entraram um governo democrático teria reconstruído duas vezes o Afeganistão. A maior parte do dinheiro foi para o bolso dos senhores da guerra.

Há dias um homem matou a família e matou-se por não conseguir arranjar trabalho, e muitos destes homens caem nas mãos dos mafiosos que estão no poder. A situação para as mulheres é um inferno, especialmente no Sul. As mulheres activas estão a ser mortas, e muitas imolam-se pelo fogo.

O nosso povo está entre dois inimigos. Um é a Aliança do Norte, que está no poder, e os taliban. O outro é o inimigo externo, as tropas que bombardeiam e matam. A nossa história não aceita a ocupação, e é por isso que o Governo é tão fraco e há manifestações contra as tropas da NATO. Se estas tropas não deixarem o Afeganistão, tenho a certeza de que vão enfrentar uma resistência crescente do meu povo. O que as pessoas estão a dizer agora é que não esperam nada de bom das tropas. Em sete anos não fizeram nada e nós perdemos a nossa independência. Se as tropas saírem, será mais fácil para nós lutar contra o inimigo interno, os taliban e a Aliança do Norte.

Viajar clandestina

A consciência política do meu povo melhorou. A única alternativa para o Afeganistão é gente que acredite em lutar contra o fundamentalismo. Mas neste momento essas pessoas têm pouco poder. Eu sou um exemplo. Por que me expulsaram do Parlamento? Porque não fiz um compromisso com eles. Como aconteceu com o jornalista Sayed Parwez Kambakhsh [um caso pelo qual a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch se bateram]. Prenderam-no por ver um site iraniano [sobre direitos das mulheres] e agora condenaram-no a 20 anos de cadeia. Não há liberdade de imprensa no Afeganistão. Não há justiça. E entretanto há criminosos à solta, que deviam ser julgados nos tribunais internacionais.

Eu gostava de estudar Direito, porque é parte da minha luta: levar a tribunal estes criminosos. Queria ir para a universidade, mas não posso, por causa da segurança. Estudei até ao 12º ano.

Tenho muitas dificuldades em viajar. Os senhores da guerra não só me expulsaram do Parlamento, como me impedem de sair. Tiraram-me o passaporte diplomático. Tenho de sair clandestinamente. Não vou entrar em detalhes, por causa da segurança, mas tenho de ir até ao Paquistão e lá apanhar um avião. E não é fácil receber um visto. Quando foi deste último prémio na Holanda, só na noite anterior é que consegui o visto. Também estou banida da imprensa afegã. As pessoas telefonam e perguntam por que não apareço. Mas tento o mais que posso ir a debates e conferências pelo mundo, para falar da realidade. Podem roubar todas as flores, mas nunca vão impedir a Primavera. Um dia teremos democracia e direitos humanos no meu país. Há um ditado que diz: a nação que se liberta é livre, mas a nação que entrega a sua libertação a outros será escrava.

# Enviado em Sábado 13 Setembro 2008 13:49
Modificado em Sexta 12 Junho 2009 20:14

DESCULPAS DO SARGENTO CHIROUX À LÍDER AFEGÃ MALALAÏ JOYA

DESCULPAS DO SARGENTO CHIROUX À LÍDER AFEGÃ MALALAÏ JOYA


"Como eu me entristeço pela violência que meu Exércto tem feito..."


por Matthis Chiroux e Malalaï Joya, Strasburgo, França, 5 de abril de 2009

Common Dreams

tradução de Eduardo Montesanti Goldoni


Em 21 de abril de 2009, o sargento dos EUA, Matthis Chiroux, vai encarar processo em Saint Louis, Missouri [estado norte-americano], por publicamente recusar a lutar no Iraque no verão passado. Como muitos outros resistentes, Chiroux serviu ao Exército por muitos anos antes de chegar à conclusão que as guerras e a ocupação no Iraque e Afeganistão estava errada, e encorajou-se a falar abertamente. Desde o verão passado, ele tem desempenhado atividade chave na organização dos veteranos dos EUA, o Veteranos do Iraque contra a Guerra (IVAW, na sigla em inglês).

Malalaï Joya, 31, é a pessoa mais nova a se tornar membro do Parlamento afegão (uma das 68 mulheres eleitas aos 249 assentos na Assembléia Nacional denominada Wolesi Jirga, em 2005); após falar abertamente contra os fundamentalistas e antigos senhores da guerra no Parlamento, ela acabou suspensa. Ela foi uma das mil mulheres indicadas para o Prêmio Nobel da Paz em 2005, foi uma 250 das líderes do Fórum Econômico Mundial em 2007, e foi indicada para o Prêmio Sakharov pela Liberdade de Pensamento, pelo Parlamento Europeu. Em 2007, ela esteve em Berlim e falou na Comissão Parlamentar da Alemanha pelos Direitos Humanos. Ela lidera o grupo não-governamental Organização para Promoção das Habilidades das Mulheres Afegãs (OPAWC, na sigla em inglês) no leste do Afeganistão. Ela sobreviveu a quatro tentativas de assassinato e só pode trafegar pelo Afeganistão com segurança armada.

De 1º a 5 de abril, Chiroux juntou-se a ativistas pela paz na Alemanha e França, para falar abertamente contra a OTAN e a guerra e ocupação no Afeganistão. Se não for preso pelo Exército dos EUA em 21 de abril, ele se juntará aos ativistas europeus pela paz na Irlanda em 26 de abril, pela campanha deles contra o uso do artifício Shannon por parte do Exército dos EUA.


Em 4 de abril, em grande demonstração em Strasburgo, França, Chiroux planejou publicar desculpas à ativista pela paz afegã Malalai joya, por participar da ocupação do país dela; contudo, antes de poder fazer isso, a demonstração foi desmantelada pelos ataques da Polícia francesa. Ele pediu suas desculpas durante o Congresso da OTAN em Strasburgo, em 5 de abril. O que se segue é um transcrito da troca de idéia entre eles:


Desculpas do Sargento Matthis Chiroux à Líder Afegã Malalaï Joya

CHIROUX: Oi para todo mundo. Meu nome é Matthis, e eu ainda sou sargento do Exército dos EUA, felizmente não por muito tempo. E esta é Malalaï Joya, do Afeganistão. E em 2005, por pouco tempo, eu ajudei a ocupar o país de Malalaï, e isso foi errado. Foi um erro meu. Eu não deveria ter estado lá. Eu não deveria ter apoiado essa opressão ao povo dela. Hoje, ei quero olhar Malalaï nos olhos, e quero dizewr a você, Malalaï, o quanto eu me entristeço com a violência que meu Exército tem praticado contra seu povo, contra seu país. Eu quero pedir desculpas a você pelo papel que eu desempenhei nisso. Foi um erro, e eu mostrarei a você que meu país e o resto do mundo podem vir aser um lugar onde eles possam admitir seus erros, se desculpar, e oferecer algum tipo de reconciliação.

Eu não tenho muito o que dar, Malalaï, mas gostaria de oferecer-lhe este pequeno símbolo de minha reconciliação e nossa boa amizade, que foi desenvolvida aqui nesta confereência, e esta amizade seguirá adiante, e tomara que a amizade de Malalaï e a minha possam servir de modelo ao nosso povo em nossos países. Podemos forçar uma paz recusadno a odiarmo-nos e matarmo-nos uns aos outros... e eu quero dar a Malalaï isto: um broche de uma pomba, um símbolo internacional da paz. Eu gostaria de pre
senteá-la com isto, Malalaï, e pedir... [aplausos] e pedir que você o aceite como lembrança de nossa reconciliação e nossa nova e duradoura amizade, e assim possamos, tomara, inspirar outros a fazer o mesmo.

Se os norte-americanos e outros soldados pudessem vir ao mesmo lugar, sabendo o que tem, sido feito de errado, e desculpar-se às pessoas pelo que eles têm feito de errado, e buscar amizade, daí nós teríamos paz e não importaria o que os governos fazem. [aplausos]

Joya: Estou sem palavras por tanto agradecimento - meu querido irmão. Eu não tenho nada para lhe dar a não ser o amor do meu povo. Dou-lho, e transmito seu amor a eles.

E quero dizer-lhe que é seu governo que deve se desculpar, antes de tudo, a grandes pessoas como você: eles estão enganando-os e usando-os para uma causa que não é boa; usam-no para uma guerra que só aumenta o sofrimento do meu povo. E é seu governo quem deve se desculpar ao povo afegão por invadir a terra deles e impor um governo mafioso dos senhores da guerra, e senhores da droga sobre o povo.

Não só ao povo afegão, mas também ao povo iraquiano pois eles ocuparam aquele país e os traíram, e guerrearã no Paquistão agora. E ogoverno dos EUA antes de tudo deve se desculpar às pessoas que querem paz e amor dentro dos próprios EUA, cujo governo tenta dar uma visão errada do povo afegão e comete crimes de guerra em nome do povo.

E ontem estive na exposição, e quis dar uma palavra em nome do meu povo aqui, para mostrar o erro da política do governo dos EUA, especialmente da OTAN - porque, infelizmente, esses governos também têm seguido a política devastadora dos EUA por sete anos até agora - a qual é uma piada de democracia. Por favor, tanto quanto você puder, levante sua voz contra a guerra mercantilista de seu governo, e também contra o que os EUA querem ocupar e ocupar... Por favor, levante sua voz contra a política errada da administração de Obama, que agora quer mandar mais tropas ao Afeganistão.e fazer acordo com o brutal Taliban, e outros terroristas para proveito de sua própria estratégia, a qual trará mais conflito e querra ao meu povo.

E neste momento de catástrofe nós precisamos de mais apoio moral e material, para as pessoas afegãs que sonham com democracia, as quais são a única alternativa para o futuro do Afeganistão: apenas elas são capazes de lutar contra o terrorismo e o fundamentalismo. O sofrido povo do Afeganistão, ninguém ouve sua voz - enquanto essas tropas estão matando nossas pessoas inocentes, em sua maioria mulheres e crianças, e por outro lado esses talibans e os terroristas da Aliança do Norte continuam seu fascismo sob as regras dos EUA / NATO. Assim, junte-se a suas irmãs e irmãos no Afeganistão, especialmente as pessoas que sonham com democracia lá, que não querem ocupação, nem Taliban, mas um Afeganistão independente, livre e democrático.

Eu tenho um pequeno presente também, ao querido Matthis, em nome do meu povo. Espero um dia ter um presente afegão para ele. Isto é de todos nós [aplausos enquanto ela dá-lhe o broche da pomba]

CHIROUX: Já encerrando, eu gostaria de dizer que encontrei aqui nessa Cúpula da OTAN. O legado desta cúpula não será a violência. Será a amizade recíproca que foi fromada aqui entre as tropas dos EUA e o povo afegão, que se recusam a lutar e se odiar uns aos outros.
# Enviado em Segunda 15 Setembro 2008 13:44
Modificado em Sexta 26 Junho 2009 08:39

PRÊMIO ANNA POLITKOVSKAYA' 2008 PARA MALALAÏ JOYA - A MULHER MAIS CORAJOSA DO AFEGANISTÃO - Nolan Chart

PRÊMIO ANNA POLITKOVSKAYA' 2008 PARA MALALAÏ JOYA - A MULHER MAIS CORAJOSA DO AFEGANISTÃO - Nolan Chart

por Edu Montesanti Goldoni, Estados Unidos, 22 de outubro de 2008


Versão original em inglês, publicada no Nolan Chart


Odiada por alguns em sua terra natal, amada e premiada em todo o mundo. A voz de Joya ecoa como um desafio ao Taliban e aos temidos senhores da guerra; e como sinônimo de esperança ao seu povo



Expulsa da Loya Jirga em 2003 e do Parlamento afegão em 2005 por questionar os senhores da guerra, que matam seu povo e traficam drogas, Malalaï Joya sobreviveu a quatro tentativas de assassinato

A Baronesa de Warsi declarou-se honrada por encontrar Joya em Londres: "Faz tempo que eu queria encontrar Malalaï Joya, e foi uma honra recebê-la na House of the Lords"


Deveriam saber que sob a ocupação dos EUA, o Afeganistão tornou-se o produtor número um de ópio do mundo, e uma grande parte dele é contrabandeada aos Estados Unidos (2) (Joya). O Afeganistão domina o mercado mundial da droga, com 93 % de ópio do mundo, apoiado pela Aliança do Norte dos senhores da guerra (líderes tribais armados). Os quatro maiores atuantes no setor de comércio de heroína são altos funcionários do governo afegão.

Você sabia disso ?


O governo afegão tem controle de apenas 30% do país, e onde o Taliban e os senhores da guerra locais detêm o poder, simplesmente não há lei. O Presidente Karzai é tão impotente frente aos "criminosos" senhores da guerra que ele é zombado, chamado de prefeito de Cabul (3). (Joya)

Você sabia disso ?


Um relatório da organização internacional de mulheres, a Woman Worldwide, declarou que milhões de mulheres e garotas afegãs continuam enfrentando discriminação e violência no dia-a-dia, e que isso aumentou no ano passado. Tanto o Taliban quanto os senhores da guerra Mujahedeen são acusados ainda de estuprar meninas muito novas, algumas de até quatro anos de idade (1). (Joya)

Você sabia disso ?


Deveriam saber que o povo afegão enfrenta um 11 de setembro todos os dias. As forças dos EUA e da OTAN matam mais civis do que os inimigos do povo afegão (...). Milhares de mulheres afegãs inocentes e crianças têm sido mortas nas operações EUA / OTAN. (4). (Joya).

Você sabia disso ?


Aparentemente, as tropas dos EUA estão aqui para combater o Taliban, mas por outro lado elas apóiam totalmente os comandantes da Aliança do Norte, que são os principais vendedores de armas e munições ao Taliban. Os soldados dos EUA são inocentes, porque foi-lhes dito que nos trariam democracia. Quando me pronunciei nos EUA no início deste ano [2007], pessoas que haviam perdido seus entes queridos no Afeganistão vieram até mim e abraçaram-me, choraram e disseram que compreendiam cada vez mais que a política dos EUA no Afeganistão é uma zombaria da democracia (6). (Joya).

Os piores inimigos do povo afegão que trouxeram Osama bin Laden e que massacraram nosso povo, e cometeram incríveis crimes contra a mulher estão agora no poder, levados de volta pelo governo dos Estados Unidos (2). Os Estados Unidos estão satisfeitos com a situação do país (...). Eles usam a insurreição de talibans como uma desculpa para permanecer por mais tempo no Afeganistão (...). Não há diferença entre esses pessoas e Pinochet, Mussolini, Hitler, e assim por diante (1). A propaganda para o mundo sobre a libertação do Afeganistão e das mulheres, e de lutar contra os terroristas, é mentira (4). (Joya)

Você sabia disso?


Se não houver Taliban, não haverá tolos norte-americanos ocupando suas terras com grandes armas e células de tortura (...). Os Estados Unidos não estão preocupados com a causa principal por trás do terrorismo no Afeganistão. Daí por que nosso povo não considera os Estados Unidos libertadores do nosso país (...).

Penso que se Espanha e outros governos realmente querem ajudar o povo do Afeganistão e trazer mudanças positivas, eles têm de agir independentemente em vez de se tornar um instrumento para implantar as políticas do governo dos Estados Unidos (...). Eles seguem exatamente os passos do governo dos Estados Unidos, e tornaram-se instrumento nas mãos dos Estados Unidos para implementar seus interesses estratégicos, regionais e econômicos (2). O povo afegão está hoje convencido de que os Estados Unidos estão dispostos a colocar-nos em risco enquanto estiver em jogo seus próprios interesses regionais (4). (Joya).

Você sabia disso?


Joya tem 30 anos. Toda sua vida tem sido uma batalha. Ela ama a vida, disposta a dar a sua própria vida por seus ideais e por aqueles que ama. Ela é literalmente uma voz no deserto, o sentido exato da religião viva em um mundo onde palavra e prática não andam de mãos dadas.

A partir das próximas linhas você saberá o que grande parte do mundo não sabe, e também saberá por que você nunca ouviu falar em Joya. Prepare-se para encarar a verdade; prepare-se para se apaixonar por MALALAI JOYA - PRÊMIO ANNA POLITKOVSKAYA' 2008


Malalai Joya - Primeiros Anos

1982. Joya tem quatro anos quando foge com a família do Afeganistão, ao Irã e depois ao Paquistão, onde vivem em campos de refugiados. As forças soviéticas invadiram Cabul em 1979, oprimindo o povo afegão por todo o país, situação que perduraria pelos próximos dez anos.

Joya é escolarizada em um campo do Paquistão onde, interessada pela vida dos refugiados, ouve histórias sobre seus conterrâneos - torturas, estupros, choros, pesadelos, mulheres que perderam maridos, filhos e filhas. Assim, fica sabendo o que acontece em sua pátria.

Garota que aprende rápido as coisas, Joya em muito pouco tempo começa a ensinar meninas e mães a ler e escrever - inclusive sua própria mãe! "Eu sabia que nossa saúde dependia da nossa educação", disse Joya este ano ao jornal francês Le Monde (confira o depoimento na íntegra, traduzido para o português).

No Afeganistão, o Taliban toma o poder em 1995. No Paquistão, a Organização para Promoção das Habilidades das Mulheres Afegãs (OPAWC, na sigla em inglês) marca Joya, a qual ingressa garotas ativistas para estimular escolas clandestinas para meninas no Afeganistão, proibidas pelo Taliban que é totalmente anti-feminista. Os pais de Joya têm medo do trabalho, o qual requer o regresso ao país, mas Joya está decidida e insiste em incentivar a família.

A Nova Vida na Velha Terra

Em 1998, quando Joya tem 20 anos, ela e a família retornam definitivamente à pátria. A ocupação soviética retirou-se do Afeganistão nove anos atrás, deixando um vácuo político preenchido pelo Taliban e pelos senhores da guerra, ambos apoiados e armados pelos Estados Unidos na luta contra os comunistas.

Joya começa imediatamente a ensinar meninas em escolas clandestinas - ganha um salário por essa tarefa, uma atividade muito perigosa, mas ela está decidida em seguir adiante. O Taliban tem espiões que perseguem garotas em toda parte, de modo que Joya e suas alunas costumam trocar de salas de aula muitas vezes, levando com elas um Corão para fingir que vão apenas rezar.

Joya Eleita à Loya Jirga, para Logo Ser Expulsa

Em Dezembro de 2003, Joya é eleita para integrar a Loya Jirga, uma assembléia de 500 cadeiras reunida para rever um projeto da Constituição, onde ela encara ao seu lado os ladrões, estupradores e torturadores que ouviu falar ao longo de toda sua infância e adolescência, no exterior.

Na Loya Jirga, os senhores da guerra da Aliança do Norte, levados ao poder pelos Estados Unidos, tentam prejudicar todos os comitês dispostos a tomar o poder absoluto aproveitando-se da nova democracia. Isso incomoda Joya profundamente, que pensa consigo mesma, "Devo desmascará-los! Isso é intolerável! São aqueles que transformaram nosso país neste núcleo de guerras nacionais e internacionais. São aquela maioria de anti-feministas da sociedade que levaram o nosso país a esse estado, e querem fazer o mesmo de novo. Considero um erro dar-lhes uma segunda oportunidade. Eles devem ser levados ao tribunal nacional e internacional". (2)

Assim, é dada autorização para que Joya fale. Há vários jornalistas na Loya Jirga; os senhores da guerra enchem o lugar. Ela fala por dois minutos, dois minutos que mudariam completamente sua vida. O discurso duro de Joya, denunciando os crimes dos senhores da guerra, faz com que haja um minuto de silêncio total. Em seguida, os senhores da guerra, furiosos, gritam insultos, "Infiel! Prostituta! Comunista!", exigindo suas desculpas. Tal pedido é impossível por parte da parlamentar indignada: "Eu preferiria morrer!". Deste modo, Joya é sumariamente excluída das atividades atuais. Nas ruas afegãs multidões gritam, "Muito bem! Muito obrigado! ".

Amplamente Apoiada pelo Povo, Joya É Eleita ao Parlamento

Em Novembro de 2005, Joya é eleita novamente: agora, para compor o Parlamento de Farah, província da capital nacional Cabul. Com 27 anos de idade, torna-se a mais jovem membro eleita do Parlamento afegão, onde testemunhou novamente a presença dos senhores da guerra corruptos, que são também senhores do ópio. Neste momento, o Afeganistão domina novamente o mercado de ópio mundial após três anos de crescimento meteórico, que evidentemente faz seus dirigentes ficar cada vez mais ricos. Desta vez, Joya manteria o silêncio? "Eu não poderia trair meu povo". Assim, no Parlamento ela começa a denunciar a presença e os atos deles.

Em maio de 2007, depois de ser constantemente ofendida e até mesmo agredida fisicamente em pleno Parlamento por colegas, ela é suspensa do ofício e outra terrível história começa a ser escrita.

Enquanto isso, o Afeganistão bate em 2007 seu próprio recorde histórico de produção de ópio: 8.200 toneladas (9). O Presidente Hamid Karzai é acusado de fazer parte disso. Neste ano também cresceu muito mais o confronto no país, particularmente ataques-suicidas como ocorrem no Iraque - anos antes incomuns no Afeganistão -, e as forças de ocupação dos EUA matam mais civis que nunca.

Joya hoje - "Troco diariamente de casa. Fui à minha cidade natal e uma ponte foi bombardeada ", disse. "Minha casa e o gabinete foram assaltados. A cada dia minha vida está em risco maior " (8). Joya tem sido ameaçada de espancamento, estupro e morte; invadiram seu micro-computador e homens devastaram seu gabinete. Por tudo isso, trafega com guardas armados escondida em uma burqa para não ser reconhecida, e nunca dorme duas noites na mesma casa.

"Eu Tenho um Sonho"

"Estou preparando-me para regressar ao Parlamento, onde tenho legitimidade. Tenho um sonho. Até muitos. Sonho que as mulheres do Afeganistão ajam e mostrem que se for dada uma oportunidade, ela podem fazer um trabalho brilhante". (7)

No Afeganistão, 87% das mulheres sofrem violência doméstica; estupros são inúmeros e 80% dos casamentos são forçados, onde filhas servem como moeda de troca; suicídios são, muitas vezes, a única opção como fuga da miséria. "Se você soubesse o número de mulheres queimadas e deformados no hospital de Herat! Educação? Segundo a Oxfam, uma menina de cinco anos vai à escola primária, quando tem 20 à secundária! Não há nenhuma melhora nessa situação, e nas regiões dominadas pelos talibans muitas meninas são freqüentemente atacadas e estupradas a caminho de escola, e suas escolas são queimadas. Saúde? Não existe! A expectativa de vida da mulher no Afeganistão é de 44 anos, a cada 28 minutos uma mulher morre nos hospitais afegãos..." (Joya declarou ao Le Monde este ano).

Por que Você Nunca Ouviu Falar de Joya?

- Porque os Estados Unidos permitem que tudo isso aconteça? (Agust Farooq Sulehria, Counterpunch Magazine, 18 de agosto de 2008)

Joya: "Os Estados Unidos querem que as coisas fiquem como estão.O status quo. Um Afeganistão sangrento, sofrido, é uma boa desculpa para prolongar a permanência deles. Agora, eles estão até abraçando o Taliban. Recentemente em Musa Qila, um comandante dos talibans, Salam de Mulla, foi nomeado governador por Karzai. Os Estados Unidos não têm nenhum problema com o Taliban, contanto que 'seja o nosso Taliban'.

"Não apenas Karzai, mas também todos esses senhores da guerra têm sido sustentados no poder pelos EUA. Por isso, quando há manifestações contra os senhores da guerra há também manifestações contra tropas estrangeiras. Aqui, se pensa que os senhores da guerra são protegidos pelas tropas dos EUA. Se os EUA saírem do país, os senhores da guerra perderão o poder porque não têm nenhum apoio da nossa população. O povo do Afeganistão lidará com esses senhores da guerra quando as tropas dos EUA deixarem o Afeganistão.

Em entrevista a Elsa Rassbach (2), Joya referiu-se às tropas aliadas desta mameira: (...) "Ao contrário do governo dos Estados Unidos, [as tropas aliadas] contarão com o povo afegão, individualmente e através de grupos amantes da liberdade, que são a alternativa real para os fundamentalistas.

"Hoje, precisamos de segurança e de liberdade, mas em nome da segurança as tropas estrangeiras privam-nos de nossa liberdade. Precisamos de apoio internacional mas não queremos ocupação. Infelizmente, hoje o Afeganistão tornou-se um país ocupado, e o governo dos Estados Unidos prosseguem com seus interesses regionais e econômicos, enquanto o bem-estar do povo afegão parece ser algo totalmente sem valor. Os Estados Unidos alimentaram e deram poder à Aliança do Norte, que é mais perigosa que o Taliban, como o próprio presidente Karzai confessou. E o Taliban está ficando mais forte, simplesmente porque a maioria do povo não suporta o atual governo.

"Devemos recordar que foram os Estados Unidos quem originalmente apoiaram o Taliban e o formaram, e os Estados Unidos também apóiam a Aliança do Norte. Os Estados Unidos poderiam facilmente livrar-se de um bando de pessoas com visão medieval, analfabetas e ignorantes como é o caso do Taliban. Na realidade, os Estados Unidos não são sérios em sua luta contra o Taliban, e precisam de apenas um pretexto para prolongar a sua presença no Afeganistão, e ameaçar o Irã, a China, os países da Ásia Central e outras potências asiáticas."

Sonali Kolhatkar disse: "Mulher como Malalaï Joya é 'inconveniente' para a administração Bush. Isso acontece porque Joya reflete a vontade do seu povo no apelo para acabar com os senhores da guerra e pôr fim à ocupação dos EUA. Bush e seus comparsas gostam de promover mulheres que passivamente aceitam o discurso dos EUA. e demonstram gratidão por ser 'salvas' pelos norte-americanos". (2)

Por isso você nunca ouviu falar em Malalaï Joya.

Prêmio Anna Politkovskaya' 2008

Anna Politkovskaya foi uma jornalista russa franca e ativista, que criticou duramente a guerra do Kremlin contra os rebeldes da Chechênia. Ela foi morta em 7 de Outubro de 2006, em seu apartamento em Moscou, por expor corajosamente violações russas aos direitos humanos no país vizinho, através de horríveis atrocidades contra civis.

Desde então, a organização Alcance Todas as Mulheres em Guerra (RAW na guerra, na sigla em inglês), em sua memória, premia anualmente uma mulher que, como Malalaï Joya, defende os direitos da mulher em uma zona de guerra e de conflitos, mantendo vivo o espírito de Politkovskaya.

Malalaï Joya visitou Londres para receber, em 6 de Outubro de 2008, o Prêmio Anna Politkovskaya porque, "Apesar das ameaças à sua própria vida, ela continua em seu trabalho para fazer do nosso mundo compartilhado um lugar melhor e mais seguro. Ela é modelo de ação a todos nós, e excelente exemplo de uma mulher muçulmana que está tão compromissada com sua religião como está com seu país e com sua política", disse a Baronesa de Warsi. Esse é um dos vários prêmios e títulos nobres que Joya tem recebido em todas as partes do mundo.


Eu sou uma pessoa. Não sou melhor que meu povo. E a segurança do todas as pessoas no Afeganistão está em risco. Minha vida corre risco cada vez maior todos os dias, porque eu não me entrego e não vou parar de lutar enquanto houver sangue no meu corpo

Prosseguirei cada vez mais em meu combate, porque a maior parte do meu povo está comigo

Eles podem cortar uma flor, mas não podem deter a chegada da primavera; eles poderiam me matar, mas não podem calar minha voz porque será para sempre a voz de todas as mulheres do Afeganistão


Joya, nós os democratas de todo o mundo amamos muito você



Outubro de 2008


FONTES :

(1) Baronees Warsi Meets Malalai Joya, The Sikh Times, London. 15 de outubro de 2008;

(2) Citado por Jake, the Champion of the Constitution in A Salute to Malalai Joya, no Nolan Chart, retirado de PBS's NOW. 8 de agosto de 2008;

(3) Daily Mail, www.dailymail.com ;

(4) Bearing Witness: The Afghan Tragedy, The Nation, 7 de outubro de 2008;

(5) A Salute to Malalai Joya, Jake the Champion of the Constitution. Nolan Chart. 8 de agosto de 2008 ;

(6) Elsa Rassbach Interviews Malalai Joya, www.afterdowningstreet.org, Alemanha. 18 - 22 de setembro de 2007;

(7) "I have a dream" - Malalaï Joya : "Je rêve qu'une femme prenne un jour les rênes de l'Afghanistan". Le Monde, Paris. 24 de julho de 2008;

(8) Afghan Woman Rights Campaigner Wins Courage Award. Reuters, London. 7 de outubro de 2008;

(9) Almanaque Abril - 2008 (Brasil)


# Enviado em Sexta 19 Setembro 2008 14:15
Modificado em Sexta 12 Junho 2009 20:19

SAUDAÇÃO À MALALAÏ JOYA - Nolan Chart

SAUDAÇÃO À MALALAÏ JOYA - Nolan Chart

por Jake o Defensor da Constituição, Estados Unidos, 8 de agosto de 2008

www.nolanchart.com



Tradução de Eduardo Montesanti Goldoni


Você nunca ouviu falar de Malalaï Joya porque, como a maioria da população afegã, ela quer que os norte-americanos deixem o Afeganistão!

Malalaï Joya, uma corajosa mulher e deputada do Afeganistão, luta por justiça, direitos humanos e democracia. Ela luta contra os senhores da guerra e os talibans... e contra o governo norte-americano, a razão provável porque você nunca ouviu falar nada dela.

Malalaï Joya, uma representante eleita do Parlamento afegão desde a invasão norte-americana, é mais famosa por denunciar publicamente os senhores da guerra na convenção constituicional de 2003. Ela sobreveu a quatro tentativas de assassinato.

Ela fala em alto e bom som em favor das mulheres de Farah, em um país e em uma época na qual elas têm pouca ou mesmo nenhuma voz.

Ela fala em alto e bom som contra o Taliban, quem usou regras teocráticas para oprimir as mulheres e todos os opositores.

Ela fala em alto e bom som contra os senhores da guerra, os quais arruinaram o país uma vez, já na década de 1990 depois do sacrifício dos combatentes da liberdade que lutaram por sua libertação contra os soviéticos, e que estão destruindo de novo o país após tomar o poder em meio ao vácuo político deixado explicitamente pelos EUA.

Ela implora exatamente por aquilo que os EUA afirmam proporcionar ao Afeganistão - direito à representação e à verdadeira democracia, ou regime da maioria. Você poderia pensar que ela fosse anunciada como heroína pela imprensa norte-americana, mas não é assim... Se você buscar nos arquivos da FOX, ABC, CBS, CNN e MSNBC por algo sobre esta mulher, não haverá absolutamente nada, ou apenas uma síntese.

Você vê, nunca ouviu nada sobre Malalaï Joya porque, como a maioria da escória afegã, ela quer que os norte-americanos saiam do Afeganistão! Sem os senhores da guerra, sem Taliban não haverá a estúpida ocupação norte-americana no país deles, com grandes armas e células de torturas. Em outras palavras, Malalaï e o povo afegão só querem paz. Seu país já não sofreu o suficiente? Muito mais fácil é dizer do que fazer, claro, mas a libertação é uma batalha de toda uma vida.

A sra. Joya tem enfrentado muita oposição até agora. Além de ameaçada de estupro e de golpes com garrafas d'água em pleno Parlamento, e de precisar viajar sob guarda armada escondida em uma burca, em maio de 2007, o atual governo expulsou-a de seu cargo após ela comparar o Parlamento a um estábulo de animais. (Mais tarde ela deixou claro que quis dizer "pior que um estábulo de animais, pois os animais domésticos servem para um propósito"). Ela viajou ao exterior procurando apoio à sua causa no mundo ocidental por muitos anos, mas os últimos relatos sobre ela que tenho encontrado são que seu passaporte está separado dela desde o começo deste ano, e que ela estava tentando reinstalar-se no Parlamento antes do ano que perdurará sua suspensão, em 2010. Eu acredito que ela está viva, e deste modo a batalha prossegue.


Joya: "A libertação não é dinheiro a ser doado; ele deve ser executada em um país pelo próprio povo".


Aqui está o trecho de uma entrevista da principal voz sobre a situação dos EUA no Afeganistão, através de quem provavelmente você nunca ouviu falar nada dela, tampouco para apresentar Joya. Seu nome é Sonali Kolhatkar, hospedeira da rádio Los Angeles e autora de Bleeding Afghanistan: Washington, Warlords and the Propaganda of Silence:


ENTREVISTADOR: "Há uma mulher muito corajosa e franca no Parlamento afegão, chamada Malalaï Joya. Ela tem freqüentemente colocado sua própria vida denunciando os senhores da guerra e clamando por fim da ocupação dos EUA. Ela tem evocado persistentemente aos direitos humanos e à verdadeira democracia. A administração Bush tem feito algo efetivo para promover ou proteger corajosas mulheres que incorporam "valores liberais", como Malalaï Joya?

KOLHATKAR: "Mulheres como Malalaï Joya são 'inconvenientes' para a administração Bush. Isto porque Joya ecoa a vontade de seu povo ao clamar pelo fim dos senhores da guerra, e também da ocupação dos EUA. Bush e seu bando gostam de promover o tipo de mulheres que aceitam caladas a narrativa dos EUA, e demonstram gratidão por elas terem sido"salvas pelos norte-americanos". De fato, há muito poucas mulheres assim no Afeganistão. Joya fala por milhões de afegãs quando denuncia os senhores da guerra. E ela freqüentemente coloca sua própria vida em risco. Quase foi morta pelo menos quatro vezes! O que significa isso é que os direitos humanos das mulheres estão disponíveis apenas para mulheres que não exercitam este diretito. E não é só Malalaï Joya quem arrisca -se por seu ativismo político. Eu pessoalmente tenho trabalhado muito próxima à Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA), e elas têm dito as mesmas coisas há anos. A RAWA ainda não pode operar abertamente sem correr riscos de danos físicos; por isso, elas devem realizar seu trabalho clandestinamente. A RAWA nunca recebeu nenhuma oferta de ajuda dos EUA (contudo, eles recusam-se a fazer isso se, de alguma maneira, uma organização permanece politicamente independente). Como a Loya Jirga, as mulheres da RAWA são inconvenientes - elas não precisam ser 'salvas' pelos EUA. Mas elas realmente precisam de um Afeganistão seguro e merecem a solidariedade internacional por seu corajoso trabalho pelos direitos humanos".


Abaixo, tomei a liberdade (sem tentar estabelecer trocadilhos) de parafrasear o discurso de Joya no começo da Assembléia Constituicional da Loya Jirga, em 2003:



"Minha crítica a todos os meus colegas é: por que deveríamos nós permitir que a legitimação e legalização desta Assembléia Constitucional torne-se questionável com a presença destes criminosos que levaram nosso país a essa condição, destruído pela guerra?

... Por favor, vejam os comitês o que diz o povo sobre isto. O presidente de cada comitê já é eleito. Por que não se põe todos esses criminosos em um comitê e deixem que digam a nós o que querem para esta nação? Esses são os que levaram nosso país ao núcleo de guerras nacionais e internacionais. Eles eram as pessoas mais contrárias às mulheres na sociedade, que levaram nosso país a este estado e tentam fazer o mesmo novamente. Acredito que seria um erro dar-lhes uma segunda chance. Eles deveriam ser levados ao tribunal nacional e internacional. Se eles estão perdoados pelo nosso povo, pela escória do povo afegão, nossa história nunca os perdoará.


Joya resumidamente discursou spbre o tema dos EUA em uma entrevista, em março de 2007 à PBS's NOW:


Now: Você acredita que as tropas da OTAN no Afeganistão estão ajudando a melhorar a segurança?

JOYA: Os EUA não estão interessados com a principal causa por trás do terrorismo no Afeganistão. Por isso nosso povo não considera os EUA como sendo os libertadores de nosso país. Eles mesmo têm matado milhares de nossos civis inocentes durante sua chamada "guerra ao terror", e seguem atacando civis até hoje.

Aparentemente, as tropas dos EUA estão aqui para combater o Taliban, mas por outro lado apóiam totalmente a Aliança do Norte a qual, de acordo com recentes relatos, é a principal vendedora de armas e munições ao Taliban, e tem feito a vida afegã terrível ao povo no norte do Afeganistão.

Acredito que nenhuma nação pode doar libertação a outra nação. Libertação não é dinheiro a ser doado; ela deve ser executada em um país pelo próprio povo. Os desenvolvimentos que seguem no Afeganistão e no Iraque provam este argumento. Só as pessoas de outros países podem ajudar e apoiar-nos.

Infelizmente, outros países envolvidos também agem muito passivemante no Afeganistão. Eles estão seguindo exatamente o caminho do governo dos EUA, e tornando-se instrumento em suas mãos para implementar sua estratégia, interesses regionais.

O povo do Afeganistão hoje suspeita profundamente da "guerra ao terror".


Now: O que você gostaria que os norte-americanos sobessem sobre seu país?

JOYA: Eu gostaria que eles soubessem que o povo afegão tem sido vítima das políticas equivocadas do governo dos EUA nas últimas três décadas que seguiram ao fim da Guerra Fria. eles deveriam saber que o Afeganistão não está de maneira nenhuma "libertado", como trombeteia a imprensa ocidental. Deveriam saber que os piores inimigos do povo do Afeganistão, os que trouxeram Osama bin Laden ao Afeganistão e massacraram nosso povo, e cometem crimes inacretitáveis contra as infelizes mulheres, estão agora no poder trazidos de volta pelos EUA. Eles deveriam saber que o povo afegão enfrenta um 11 de setembro todos os dias. Deveriam saber que sob a ocupação dos EUA, o Afeganistão tornou-se o número um na produção de ópio mundial, grande parte dele contrabandeado pelosEUA. Por fim, eu gostaria que eles soubessem que, como todos os seres humanos, o povo afegão ama a democracia, a liberdade e sonha com uma vida próspera. Enquanto odiamos os fomentadores da guerra e as políticas promotoras de crimes do governo dos EUA, sentimos, reconhecemos e agradecemos à solidariedade e o apoio do povo dos EUA, e sabemos de seu humanitarismo e dedicação."


Não tenho mais nada que acrescentar às palavras dela a meus companheiros norte-americanos. Contudo, eu preferiria muito mais a forma de república em vez da democracia, mas tudo o que o povo de um país escolhe, para mim está muito bem. Infelizmente, muita gente hoje não sabe sequer qual a diferença entre eles.


# Enviado em Segunda 13 Outubro 2008 17:21
Modificado em Sexta 12 Junho 2009 20:20

"EU TENHO UM SONHO" - Journal Le Monde

"EU TENHO UM SONHO" - Journal Le Monde

Jornal francês Le Monde. Paris, sábado 2 de agosto de 2008, nº 3117


versão original em francês em IDIOMAS - Francês

Tradução de Eduardo Montesanti Goldoni


MALALAÏ JOYA

"Eu tenho um sonho"


Ela tem 30 anos. Ela está cercada. Ela não suporta indiferença nem negligência. Falta-lhe tempo. Falta justiça. Pior ainda. Faz tempo que ela escolheu isto. Ela está disposta, diz isso, a sacrificar sua vida. O Afeganistão sangra há muito tempo. Faz-se urgente, diz ela, que saima de seus lugares os esclarecidos e gente inconformada, rebelde com a situação e que vão à luta, para livrarmo-nos dos senhores da guerra [são assim chamados os líderes étnico-tribais armados do país, grifo nosso] e do ópio, e constituir uma verdadeira democracia. Deputada eleita ao Parlamento de Cabul, está afastada do ofício por meios vergonhosos, ela não dorme nunca duas noites seguidas sob o mesmo teto, ameaçada pelos que denunciou por crimes, tráficos, por frouxidão, corrupção. Seu nome, para todos os democratas e mulheres afegãs, ressoa como uma provocação ao poder estabelecido, e uma esperança também. Malalaï Joya, "a mulher mais corajosa do Afeganistão".

Ela palpita como um pássaro, a sobrancelha pregueada e o olhar ansioso. A eloqüência de sua voz é desenfreada, fica impaciente quando interrompida. Ela sempre teme perder tempo. Tanta coisa para contar, injustiças e desgraças para denunciar, clamar por ajuda dirigida aos democratas do mundo inteiro. então, um sonho? Seu semblante ilumina-se em uma fração de segundo e seu olhar perde-se distante. Sim, tantos sonhos...



Eu Sonho Que Um Dia as Mulheres Tomem as Rédeas no Afeganistão


Eu sonho que uma mulher um dia tome as rédeas do Afeganistão. Tenho recebido um mar de insultos: prostituta, louca, infiel, comunista... Um dilúvio de ameaças: estupro, seqüestro, assassinato... Uma bomba explodiu na multidão que me esperava em um dia de encontro. Meus escritórios têm sido espionados, tentaram emboscar minhas equipes. Tenho sobrevivido a quatro tentativas de morte. Minha determinação não vai ceder. Minha vida, é verdade, é complicada. Eu troco de teto toda noite. E de dia não ando mais por Cabul, a não ser de táxi escondida dentro de uma burqa. É difícil para minha família, para meu esposo. Mas eu tenho o apoio do povo. Indestrutível e ardente. As balas podem tirar minha vida, mas não aniquilarão minha voz, porque para sempre é a voz do Afeganistão. Eles podem cortar uma flor, mas não podem deter a primavera.

Meu nome, Malalaï Joya, não por acaso. Foi meu pai quem escolheu, o nome dos mais velho de seus dez filhos, e nome de uma heroína da história afegã, Malalaï de Maiward, que se entregou em 1880 em uma batalha para combater os britânicos. Uma mulher virtuosa, disposta a sacrificar-se por seu povo e por suas idéias. Sinto-me sua discípula. Quanto ao sobrenome Joya, fui eu quem escolheu. Normalmente, uma mulher leva apenas o nome do seu pai após o do esposo. Mas eu decidi retomar o nome de um combatente pela liberdade, que foi executado após recusar as últimas condições que salvariam sua vida. Adoro este homem, e sou sua herdeira. Tenho 30 anos e não quero morrer, mas estou disposta, como ele, a arriscar minha vida.

Eu tinha quatro dias de vida quando um regime pró-soviético tomou o poder em Cabul, quando minha família foi ao Irã, oito anos quando nos juntamos a um campo de refugiados no Paquistão, 20 anos quando retornamos ao Afeganistão dos talibans e acabei sendo ativista. Era 1998. Depois, fui eleita ao Parlamento afegão para representar a província Farah. Depois fui excluída deste mesmo Parlamento por ter ousado criticar os senhores da guerra e da droga, que formavam 80% da Assembléia indigna. Quando então a comunidade internacional agirá neste caos que enterra meu país? Quando se compreenderá que os líderes não são nem mais nem menos que uma aliança de criminosos corruptos que desprezam as mulheres, que não sonham com nada mais que enriquecer-se?

Meu pai, estudante de Medicina, era democrata e engajou-se junto aos mujahedins sinceros para combater a ocupação soviética. Ele perdeu uma perna. Precisamos deixar o país. Fui alfabetizada em um campo de refugiados paquistanês voltado à vida de refugiados, e foi netste lugar também que me interessei pela vida dos refugiados, escutando seus relatos, seus choros, seus pesadelos, onde aprendi o que se passava no Afeganistão na época dos soviéticos e depois, na partida dos russos durante a guerra civil, quando os mujahedins praticaram o terror em Cabul. Estes eram os criminosos e bárbaros, sedentos de violência e de poder, e as recordações das mulheres do campo que haviam perdido seus esposos e filhos ou haviam sido torturadas e estupradas, cheias de pavor, eram terríveis.

Seguindo estudando apenas de manhã, rapidamente comecei a ensinar a ler e a escrever às meninhas do acampamento e a suas mães, inclusive à minha! Eu sabia que nossa saúde passava pela educação.

A organização OPAWC marcou-me. Esta ONG (Organização Não-Governamental) recrutou no acampamento jovens ativistas capazes de estimular no Afeganistão uma rede clandestina de escolas para as menininhas. Minha família por muito tempo hesitou, minha mãe tinha medo do taliban. Isto envolvia-nos em um retorno ao nosso país e que eu me engajasse ali - com um salário - em uma atividade perigosa. Mas eu estava convencida. Passamos pela fronteira todos juntos, eu vesti a burka e comecei a trabalhar em uma região de Farah, dentro da rede oculta de escolas de garotas. Havia medo, claro. Os talibans tinham espiões que seguiam os grupos de garotas comerciantes. Mudou-se o regulamento local. levava-se sempre o Corão para fingir ao inimigo que rezávamos.

O atentado do 11 de setembro provocou um verdadeiro choque. Ficamos sabendo através da rádio, interditada pelos talibans, mas através da BBC conectada ao mundo. Tanta discussão foi gerada! Naquela época também tememos a guerra iminente, mas havia a esperança de que os estrangeiros proporcionariam-nos um golpe para chegar ao poder. Foi a primeira vez na nossa história que estivemos dispostos a dar confiança a estas forças de ocupação!

Fui eleita à Loya Jirga, uma assembléia de 500 pessoas de todo o Afeganistão, convocada para examinar um projeto da Constituição em dezembro de 2003. Eu era a figura principal, e o que vi acontecendo ali, em Cabul?Todos os criminosos, bandidos, ladrões, torturadores que me haviam apontado como culpados desde minha juventude, e dentre os quais muitos entrincheiraram-se como ratos na época dos talibans! Eu não podia acreditar no que meus olhos víam! Eles estavam ali, atrevidos, arruinando todos os comitês, tentando arrancar o poder aproveitando-se da nova ordem democrática! Isto era insuportável! Eu deveria desmascará-los perante o mundo inteiro. Pedi dois minutos de palavra em nome da nova geração. Eu me dirigi, denunciando a presença destes traidores, decididamente anti-feministas, que arruinaram meu país e que mereciam ser levados à Justiça. Houve de repente um alarido horroroso. Eles ficaram todos de pé, punhos acima, uivando injúrias, exigindo minha expulsão e minhas desculpas. Eu preferiria morrer!

A multidão aguardava meu retorno à província. Gritavam-me, "Muito bem, obrigado!". Ofereceram-me porções de terra e alianças de casamento. Diziam-me que continuasse lutando contra os criminosos. Pediam-me que apresentasse às próximas eleições. Eu não tinha o direito de ocultar-me.

Foi assim que, em novembro de 2005, lancei-me de novo ao Parlamento afegão. E foi também deste modo que, após minha denúncia da presença dos senhores da guerra e dos corruptos do ópio, que me jogaram às piores situações, invadindo meu micro e ameaçando estuprar, me matar... "Alegaremos seu suicídio!". Eles, além disso, concluíram uma votação para me exculir. Havia manifestações de apoio, apelos internacionais, e não fizeram nada contra mim.

No momento em que me preparo para reintegrar-me ao Parlamento, onde estive legitimamente, tenho um sonho. Muitos, aliás. Sonho antes que as mulheres afegãs tomem atitudes e estabeleçam-se, levantem vôo, exijam todos os seus direitos. De tudo o que atormenta nosso país, elas são as principais vítimas: 87% sofrem violências domésticas; as violações - em grande parte impunes - são inumerávis. 80% das uniões são casamentos forçados, as filhas servem de moeda de troca: elas podem ser cedidas a anciãos, ofertadas em reparação por alguma dívida, trocadas às vezes por um cachorro. P suicídio - forca, estrangulamento, imolação - surge a muitas como a única opção para fugir da miséria delas. Se você soubesse o número de mulheres queimadas, desfiguradas, no hospital de Herat! A educação? Segundo a OXFAM, uma filha aos cinco anos vai à escola primária, e aos 20 à secundária! E isso não melhora! Nas regiões controladas pelos talibans, as menininhas são freqüentemente atacadas e raptadas no caminho da escola, e queimam-se os prédios das escolas. A saúde? Inexistente. A expectativa de vida de uma afegã não passa dos 44 anos; a cada 28 minutos morre uma mulher nos leitos...

Eu sonho que se desmascarem os criminosos corrompidos que governam este país, e enriquecem-se com o ópio e com a ajuda ocidental, quando 70% da população vive com menos de 2 dólares por dia, 98% não tem acesso à eletricidade e afunda-se na insegurança. Eu sonho em ver esta corja do caráter de Hitler, Mussolini, Pinochet, Khomeini comperecidos á Justiça Internacional.

Eu sonho que se acabe esta mescla de Islã e política, e que o Afeganistão, livre da ocupação estrangeira, viva uma grande democracia laica. O Islã está em nosso coração e em nosso espírito. Ele não pode servir para se manipular a opinião.

Eu sonho que os cantos mais afastados do Afeganistão sejam dotados de uma escola. E de acesso à Internet.

Eu sonho, enfim, que uma mulher tome um dia as rédeas do Afeganistão e prove ao mundo inteiro que, no momento que lhes é dada uma chance, as mulheres podem fazer um trabalho brilhante.


# Enviado em Sexta 31 Outubro 2008 18:22
Modificado em Sexta 12 Junho 2009 20:20